terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nome próprio

eu tenho medo de largar sua mão
e simplesmente me despedaçar
da última vez doeu tanto
que eu mal pude me refazer
tenho medo de me perder andando sem rumo
e de não saber diferenciar o belo do incerto
tenho medo de cair
e de não conseguir discernir os seus olhos oblíquos e diagonais
das pontas de agulha
dos metais aquecidos
das bordas infinitas
que não caem nem se vão

você viu quando eu caí?
ouviu quando eu gritei? Você dormia na penumbra
você não sabe o quanto quis morrer
por vê-lo continuar
caminhar por entre os outros
dobrar a esquina
se afastar
Como se não tivéssemos sido nada
um pro outro
ou como par
nem um amor
nem um desgosto
eu ainda sinto as suas mãos nas minhas
eu ainda sinto esboço do seu cheiro
indo
mas não se esvaindo
morrendo na distância
vivendo em meus espaços

eu ainda sinto a sua falsa inocência
a sua ironia disfarçada
sua boca fechada
seu esquecimento, sua falta, sua ilusão
o seu desdém, seu fel, meu chão
sinto seu riso
ecoando disforme e sádico
em minha cabeça
em minha desgraça
em minha fraqueza
sinto a cadência em seu desprezo
sinto o seu estreitamento, sua impossibilidade, sua confusão
seu desleixo, seu perigo, sua posse, meu nada

sinto
o meu descuido, meu medo, meu excesso, sua saudade
que por todas as vias, é minha
não há mais meio
insanidade
minha doença, minha vontade, sua ausência, o meu espaço, seu corpo
que ansiei que fosse meu
e minha fuga, como não há rotas, acabo imóvel
escondi seu endereço pra não te achar
desencontrei seu rosto quando vi inexpressão
jogo da forca, as letras não formam saídas
os erros matam as esperanças
desmembram as evidências
desidratam o frenesi de cada memória
não posso mais te assustar
nem estar no desafio do seu rosto
não sei mais por onde tentar
me proponho te esvaziar
matar você enfim
desfiar
a corda que você botou em mim
acordar
desse desespero
ordenar de novo aquilo que foi um dia motivo
quero apagar todos os afetos
quero poder te chamar de fim

*Texto de Gabrielle Torres e Drielle Barbosa

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