Havia um menino. Havia uma pedra. Havia um menino e uma pedra. Havia uma pedra e um menino. O menino chutava a pedra. A pedra, por sua vez, como reação à ação a ela empregada, chutava o menino. Formavam ali, um par. Ora um era o chutante, ora outro era o chutado. Passavam assim a tarde. O menino, enquanto chutava a pedra, pensava na vida e no que aquela pedra estaria pensando. A pedra pensava no porquê de o menino querer chutá-la tantas vezes. Mas, na verdade, eles não sabiam de nada. Não sabiam nem o porquê de estarem ali. Aliás, sabiam de uma coisa, apenas. Sabiam por que eram chutados. Eram chutados porque chutavam. Simples. Simples, mas estranho. O menino poderia parar, a qualquer momento, com aquele ciclo, mas não conseguia. Não conseguia justamente porque era um ciclo. Pedra e menino, menino e pedra. E vice-versa. Enfim, eram dois, um par. Ação e reação. No fim, companheiros. Tão companheiros, que não sabiam mais, depois de tanto tempo ali chutando e sendo chutados, quem era pedra e quem era menino.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Do avesso
Empreste-me sua vida,
Eu vivo a sua
Você vive a minha
Trocamos os descompassos,
Os percalços e os gemidos.
Fingimos no escuro
Que não nos conhecemos,
Não nos queremos.
Visto sua pele, sua fantasia.
Confundo-me a respeito de nós
Do que há de mais íntimo e explícito.
Do avesso.
No fim, desfeitos os trejeitos,
Você de volta ao seu eu,
O meu não tem mais volta.
Encontro-me cheia do seu ego
Espelho duplo, turvo.
E agora você está aqui,
Mais do que eu em mim.
Réquiem
Você segue sozinho,
Daqui consigo ouvir seus passos
Mas parecem leves demais
Consigo ouvir suas vozes
Seus pensamentos
Todas as harmonias, seu ritmado descompasso
Centenas de provas de sua presença imaterial.
Espaços afloram entre suas cicatrizes
Não vejo mais que grandes traumas e pequenas preocupações
Você parece translúcido, quase uma hesitação
Eu vi as flores plantadas no jardim
Mas já estavam mortas.
Tudo aqui cheira a insatisfação
Desilusão, ausência, distância.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
País das Maravilhas
Um pouco mais de poesia nesta noite escura,
Nesta vida estranha com gosto estranho no final.
Um pouco mais de fantasia pra esquecer desta cidade que
nasceu falida,
Um pouco menos de pés cheios de chão e solidão.
Um pouco menos de drogas evitando a sanidade pra se olhar no
espelho.
Um pouco menos de você aqui para me lembrar de tudo que eu
não sou, pra me sugar tudo que eu não tenho, pra me tirar a força e a razão. Pra
fingir que sua perversão é mais digna que a minha.
Um pouco mais de pés descalços em passeios matutinos sem
culpa ou receio. Sem segredos ou
ameaças.
Um pouco mais de você
sem mim, assim, devagar. Um pouco mais do seu inescrupuloso sorriso e gozo
longe de mim.
Um pouco mais de luzes atrapalhando as sombras das árvores,
as vozes nas casas cortando o silêncio, um pouco mais do cotidiano, rotineiro e banal.
Um pouco mais de vida nesta pulsão de morte, de ilusão neste
poço de realidade, um pouco mais de cogumelos coloridos e gatos falantes.
Um pouco mais de felicidade, mesmo que seja inventada.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
You know, you're right
Eu poderia esperar por você
Mas acho que já fiz isso demais
Eu poderia te procurar nestes buracos que você gosta de se esconder
Mas eu não vou me sujar mais
Eu poderia jogar você da ponte
Mas eu não quero te ajudar mais
Você está certo
Está sempre certo
Está tudo certo
Eu só quero te negar ajuda quando você precisar
Eu quero encher os seus bolsos de formol para que você cheire como a morte
Eu quero desestruturar esses seus pensamentos de amor
Porque isso não é amor
Eu queria te esquecer
Mas acho que já fiz isso demais
Você está certo
Está tudo em sua certeza
De que o mundo vai te acolher mais uma vez
Eu poderia até te encolher
Para que você virasse só um retalho nessa confusão
Mas não quero me despedaçar mais
Não tem mais o jeito certo
Apenas o seu jeito
Nós estamos flutuando nessa imensa nuvem negra
Nós estamos viajando no seu avião
E todas as noites ele colide com o nada.
Eu não quero mais de você
Não quero mais ter que ceder
Nem esquecer. Nem tentar.
Mas acho que já fiz isso demais
Eu poderia te procurar nestes buracos que você gosta de se esconder
Mas eu não vou me sujar mais
Eu poderia jogar você da ponte
Mas eu não quero te ajudar mais
Você está certo
Está sempre certo
Está tudo certo
Eu só quero te negar ajuda quando você precisar
Eu quero encher os seus bolsos de formol para que você cheire como a morte
Eu quero desestruturar esses seus pensamentos de amor
Porque isso não é amor
Eu queria te esquecer
Mas acho que já fiz isso demais
Você está certo
Está tudo em sua certeza
De que o mundo vai te acolher mais uma vez
Eu poderia até te encolher
Para que você virasse só um retalho nessa confusão
Mas não quero me despedaçar mais
Não tem mais o jeito certo
Apenas o seu jeito
Nós estamos flutuando nessa imensa nuvem negra
Nós estamos viajando no seu avião
E todas as noites ele colide com o nada.
Eu não quero mais de você
Não quero mais ter que ceder
Nem esquecer. Nem tentar.
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