segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Impróprio

Se fosse impróprio, não deveria nem ser feito, criado. Se fosse impróprio, deveria ser destruído, em último caso, quando criado. Mas não. O impróprio acaba exposto com aquele gosto estranho do proibido. Não é à toa. Sobra um desejo mal escondido por baixo de panos grossos, como se esses escondessem qualquer cobiça quase autossuficiente e tão bem endereçada.
Gosto do toque, mas gosto mais quando é escondido. Gosto quando não é falado também, ou é fugido. Gosto quando pensa que ninguém vai notar. Sorriso canto-de-boca. Olhos com más intenções a observar, ávidos.
Seus olhos fazem comigo o que suas mãos queriam fazer. Comigo e com tudo que você vê. É doce, apimentado. Amargo. É desmedido esse seu desejo, beira à loucura. Mas não vou negar, tem lá o seu charme quando visto pela metade. Este cheiro de ideias infames em cabeças a pensar o que poderia ser feito com tantas (im)possibilidades.
 Segredo mal-falado e bem-sabido. Sentido sob as luzes ou sombras de noites que escondem mentiras lavadas e verdades sujas de quem prefere evitar qualquer coisa a mais que um gole e boas palavras.  Risco que vale, se bem vivido, se bem intenso, bem querido. É copo transbordando de vontade, embriagando de gosto, pele e rosto. E quanto mais, melhor.
            Traz mais uma dose desta loucura, por favor, eu vou até o fim.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lua que cai com a chuva

Simples surtos de alegria desmedida
Eu não saberia diferenciá-los dos ataques de histeria
Nem dos delírios nervosos que eu tinha quando achava que estava morrendo.
Na verdade eu não estava, só achava que não aguentaria muito tempo o viver só por viver
Não era uma história muito sublime, então eu não contava
Não eram perdizes, mas só ilusões
Não eram crônicas dramáticas, eram só uns hormônios a mais
Hoje não faz mais diferença
Aqueles foram outros dias
Estávamos todos entorpecidos demais por bobagens psicoativas
drogas televisivas, estruturas de corpos em litígio e pensamentos que só corrompiam a si mesmos
Há histórias que apenas merecem serem esquecidas, coisas que nasceram para serem jogadas foras, bordas que não completarão um círculo
Nem todos os amores são para serem vividos
Estamos de costa para esse tipo de abismo no qual muita gente se joga
Eu não saberia medir a perversidade de nos abraçarmos e cairmos juntos
Ou prever o quão estúpidos nos sentiríamos se não o fizéssemos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Inépcia

Havia um menino. Havia uma pedra. Havia um menino e uma pedra. Havia uma pedra e um menino. O menino chutava a pedra. A pedra, por sua vez, como reação à ação a ela empregada, chutava o menino. Formavam ali, um par. Ora um era o chutante, ora outro era o chutado. Passavam assim a tarde. O menino, enquanto chutava a pedra, pensava na vida e no que aquela pedra estaria pensando. A pedra pensava no porquê de o menino querer chutá-la tantas vezes. Mas, na verdade, eles não sabiam de nada. Não sabiam nem o porquê de estarem ali. Aliás, sabiam de uma coisa, apenas. Sabiam por que eram chutados. Eram chutados porque chutavam. Simples. Simples, mas estranho. O menino poderia parar, a qualquer momento, com aquele ciclo, mas não conseguia. Não conseguia justamente porque era um ciclo. Pedra e menino, menino e pedra. E vice-versa. Enfim, eram dois, um par. Ação e reação. No fim, companheiros. Tão companheiros, que não sabiam mais, depois de tanto tempo ali chutando e sendo chutados, quem era pedra e quem era menino. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Do avesso

Empreste-me sua vida,
Eu vivo a sua
Você vive a minha
Trocamos os descompassos,
Os percalços e os gemidos.
Fingimos no escuro
Que não nos conhecemos,
Não nos queremos.
Visto sua pele, sua fantasia.
Confundo-me a respeito de nós
Do que há de mais íntimo e explícito.
Do avesso.
No fim, desfeitos os trejeitos,
Você de volta ao seu eu,
O meu não tem mais volta.
Encontro-me cheia do seu ego
Espelho duplo, turvo.
E agora você está aqui,

Mais do que eu em mim. 

Réquiem

Você segue sozinho,
Daqui consigo ouvir seus passos
Mas parecem leves demais
Consigo ouvir suas vozes
Seus pensamentos
Todas as harmonias, seu ritmado descompasso
Centenas de provas de sua presença imaterial.
Espaços afloram entre suas cicatrizes
Não vejo mais que grandes traumas e pequenas preocupações
Você parece translúcido, quase uma hesitação
Eu vi as flores plantadas no jardim
Mas já estavam mortas.
Tudo aqui cheira a insatisfação
Desilusão, ausência, distância.